Posicionamento dos dealers: gamma, vanna e OPEX
Um dos fatores que mais move o mercado e que quase nenhum curso para retalho explica: como se cobrem os criadores de mercado de opções (dealers). Não apostam direção; compram e vendem o subjacente para ficarem neutros, e esse hedging mecânico —por vezes enorme— empurra o preço. Aqui tem gamma, vanna, charm e porque é que o mercado se "crava" ou dispara nos vencimentos.
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Quem está do outro lado: o dealer
Quando compra ou vende uma opção, do outro lado costuma estar um criador de mercado. Não quer apostar direção: para ficar neutro compra ou vende ações do subjacente (ajusta o seu "delta"). Se o mercado se mexe, tem de reajustar essa cobertura uma e outra vez. Esse fluxo mecânico de compra/venda, multiplicado por milhões de contratos, deixa uma marca real no preço do subjacente.
Gamma exposure (GEX)
A gamma mede quanto muda o delta (a cobertura) quando o preço se move. O GEX soma a gamma que os dealers têm em cada strike. Com gamma POSITIVA (dealers longos de gamma) compram nas quedas e vendem nas subidas → amortecem a volatilidade e o mercado torna-se "pegajoso". Com gamma NEGATIVA (dealers curtos) fazem o contrário: vendem quedas e compram subidas → amplificam o movimento e disparam a volatilidade.
Pinning e max pain
Perto de um vencimento com gamma alta, o hedging dos dealers tende a "cravar" o preço nos strikes com mais open interest. É o efeito íman: sempre que o preço se afasta, a cobertura devolve-o. O nível onde mais opções expirariam sem valor chama-se "max pain" e costuma funcionar como íman. Por isso, no dia do vencimento, o preço fica colado a um número redondo com mais frequência do que parece coincidência.
Gamma squeeze
Quando os dealers estão muito curtos de gamma —por exemplo porque o público comprou montanhas de calls— cada subida obriga-os a comprar mais subjacente para se cobrirem. Essa compra empurra o preço ainda mais para cima, o que os obriga a comprar ainda mais… um ciclo que se retroalimenta e dispara o preço de forma violenta. Foi o que amplificou o caso GameStop em 2021. Funciona igual em baixa com puts.
Vanna: a IV empurra o delta
Vanna mede como muda o delta (a cobertura) quando muda a volatilidade implícita (IV), não o preço. Com vanna alta e positiva, uma simples QUEDA da IV obriga os dealers a COMPRAR subjacente para se reajustarem → pressão de alta sem que tenha acontecido "nada" nas notícias. É a explicação daqueles rallies lentos "só porque desce o VIX". Domina em ambientes onde é a volatilidade, e não o preço, que se move.
Charm: o OPEX drift
Charm mede como muda o delta com a simples passagem do tempo. Ao aproximar-se o vencimento, o delta das opções dentro do dinheiro acelera para 1 (calls) ou −1 (puts), de modo que os dealers têm de comprar ou vender subjacente mesmo que o preço não se mexa. Esse reajuste pelo relógio produz o "drift" —muitas vezes de alta— tão típico da semana de vencimento. É o tempo, não a direção, que move o fluxo.
0DTE e OPEX: fixar ou rebentar
As opções que expiram no próprio dia (0DTE) e os grandes vencimentos (a terceira sexta-feira, os trimestrais) concentram uma gamma enorme em poucas horas. O resultado tem duas faces: enquanto o nível aguenta, o hedging fixa o preço e a volatilidade apaga-se; mas se um empurrão quebrar esse nível, a cobertura inverte-se de repente e o movimento torna-se violento. São os dias em que o fluxo dos dealers manda mais do que as notícias.
Porque o GEX publicado é uma estimativa
Nenhum dado público diz quem comprou e quem vendeu cada contrato. O interesse em aberto é um número sem sinal, pelo que qualquer GEX que veja assenta num pressuposto: que o cliente compra calls e vende puts, e que o dealer fica do outro lado. É razoável em média e falso em casos concretos — uma mesa que venda calls cobertas em grande escala inverte o sinal nesses strikes. A consequência prática não é descartar a medida mas usá-la pelo que é: um mapa de onde poderá haver cobertura, não uma posição conhecida. Trate-a como contexto, não como um dado onde pendurar um stop.